Bodhichitta,
a Mente da Iluminação


A base absolutamente essencial para a prática do budismo em sua forma tibetana é o desenvolvimento da Mente da Iluminação, ou Bodhichitta. A Bodhichitta não é somente um tipo de altruísmo: ela consiste do voto de nós mesmos atingirmos a perfeição para levarmos todos os seres lá.

Todos os seres vivos, sem excepção, desejam obter a felicidade e evitar o sofrimento. Porém, é impossível obter felicidade real sem tomar conta do bem estar dos outros. Portanto, uma das chaves para a prática espiritual é compreender que nossa felicidade existe através da felicidade dos outros; e mesmo a felicidade dos outros é mais importante do que a nossa própria. Entretanto, não é uma questão de sacrificar a nossa própria felicidade; quando se ceifa o trigo, também se obtém a palha. Do mesmo modo, se cuidamos essencialmente da felicidade dos outros, a nossa virá naturalmente. Para fazer isso, é necessário relaxar a influência que o desejo egocêntrico pelo prazer tem sobre a nossa mente. Adquirimos, durante numerosas vidas passadas, o hábito de sermos o centro de nossas preocupações. Para nos livrarmos desse estrangulamento, precisamos nos abrir aos outros.

Vamos desenhar uma linha, nos colocarmos de um lado dela, e colocar todos os outros seres do outro lado. Não fica claro que a felicidade dessa multidão de seres é mais importante do que apenas a nossa? Procurar a própria felicidade às custas do sofrimento desse grande número de seres é, claramente, uma abordagem totalmente errada. Por outro lado, trazer o bem-estar para todos os seres, mesmo às custas do sofrimento e dificuldade para si mesmo, um único ser, não é realmente um problema.

Podemos ver que as pessoas que são mais abertas aos outros são também aquelas às quais os outros são mais amigáveis. Alguém que fica mau humorado o tempo todo, pensando apenas em sua felicidade imediata, não pode esperar que alguém sorria para ele como se fosse um vizinho ou um amigo. Ao se fechar aos outros, fecha-se a porta para a sua própria felicidade. A ternura, o amor e a bondade não são qualidades que precisamos fabricar, pedaço por pedaço, como se fossem novos factores que deveríamos introduzir em nosso ser. A experiência mostra que eles são parte da natureza essencial de todos os seres vivos. Precisamos apenas deixar este potencial, inerente dentro de nós, se desenvolver e se expressar livremente.

A expressão destas qualidades é um processo que requer uma profunda transformação. De fato, somos mais como um rolo de papel que ficou enrolado por um longo tempo. Se o desenrolamos, o papel enrola-se novamente assim que tiramos nossas mãos. Por muito tempo, temos nos colocado como a dianteira de nossa mente. Então, algum tempo e alguma perseverança são necessários para substituirmos estas tendências egoístas por uma preocupação com o bem-estar de todos os outros. Porém, já que temos esta natureza perfeita, este potencial está presente em cada ser, assim como o óleo de gergelim está presente na semente de gergelim, e é possível de nós trazermos estas qualidades à fruição.

O budismo distingue — e esta é uma importante divisão — dois aspectos da realidade: o relativo e o absoluto. Enquanto não tivermos atingido a compreensão, nadamos no mar da verdade relativa. Experimentamos a ilusão do sofrimento, a ilusão do caminho e a ilusão da liberação. Do ponto de vista da verdade absoluta, tudo isto é apenas uma ilusão. Porém, para nós, que estamos mergulhados nela, realmente é verdade. Então, temos de usar os caminhos e meios da verdade relativa para sair disto, e por isso meditamos sobre a Bodhichitta. Também poderíamos perguntar a nós mesmos, "Se temos a natureza de Buddha, de onde vem o apego a nós mesmos?" Esta é uma pergunta importante de se fazer, já que é a partir desta noção de entidade que nós nos concedemos e nos projectamos sobre os fenómenos que nos cercam; é a partir desta noção que a primeira manifestação de ignorância é nascida.

Temos um sentimento inato de um Eu, e nos apegamos à sua existência como se fosse uma entidade sólida, presente dentro de nós. Dê uma olhada nele: o Eu está no corpo, é parte de nossa pele, de nossos ossos, de nossa carne? Ele é encontrado no coração, ou na mente?

Vemos facilmente que o ego não faz parte do corpo. De fato, basta remover a vida do corpo para que a noção do Eu desapareça. Se separarmos a pele, os ossos, os órgãos etc., nada encontraremos que possa ser descrito como um Eu. Se pensarmos que o Eu forma uma parte da mente, analise-a do mesmo modo. O que chamamos de mente é apenas uma sucessão de instantes de consciência. O pensamento passado está morto, o pensamento futuro nem existe ainda, e o pensamento presente não pode ser tocado.

Portanto, não há qualquer entidade dentro da consciência que possa ser descrita como o Eu. A única coisa que podemos dizer sobre a mente é que ela é um fluxo, uma continuidade, um rio no qual não se pode isolar qualquer entidade. Que grande descoberta é reconhecer que, de fato, aquilo ao qual estávamos tão apegados, e que dava surgimento a tantos pensamentos, não tem existência própria!

Do mesmo modo, a análise do mundo dos fenómenos mostra que nenhuma entidade permanente é encontrada. O aspecto absoluto da Bodhichitta significa permanecer em um estado de contemplação no qual nenhuma entidade é encontrada, tanto no indivíduo quanto no mundo dos fenómenos.

Porém, esta Bodhichitta absoluta não é directamente acessível. Apesar de se poder compreendê-la intelectualmente, não é fácil realizá-la de um modo que se torne parte integral de si mesmo. Para fazer isso, primeiro é indispensável proceder através do desenvolvimento da Bodhichitta em seu aspecto relativo. Pouco a pouco, precisamos desenvolver a bondade — o desejo de que todos os seres sejam felizes e possuam as causas da felicidade — e também a compaixão — o desejo de que todos os seres sejam liberados do sofrimento. É possível que, durante esta prática, possamos nos confrontar com dificuldades que se originam no apego de nossa mente à realidade dos fenómenos.

Neste evento, seria útil retornar à meditação sobre a verdade absoluta, para dissolver a solidez que atribuímos aos fenómenos. Alternando assim os períodos de meditação sobre a verdade absoluta com o desenvolvimento das qualidades altruístas — baseadas na verdade relativa — e combinando estas duas verdades — vistas como inseparáveis — podemos avançar sem obstáculos sobre o caminho.

Para atingir a realização destes dois aspectos da Bodhichitta, é necessário respeitar as regras da viagem. Nas palavras do Buddha, "Abandone as más ações, pratique bem a virtude, dome sua mente: este é o ensinamento do Buddha". É importante compreender o que se quer dizer com acções positivas e negativas. Não significa algum conceito abstracto de bem e mal definido, independente de qualquer resultado externo. Um ato positivo produz felicidade, serenidade, para si mesmo e para os outros, enquanto um ato negativo produz sofrimento. Este definição é extremamente prática; é baseada sobre resultados. Conhecer os mecanismos da causa e efeito que conduzem à felicidade e ao sofrimento é um dos pontos fundamentais do budismo. Além disso, já que a origem de cada ato ou palavra, positivo ou negativo, está em um pensamento, a primeira coisa a se fazer é ter maestria sobre a mente.

Para nos abrirmos a este estado de mente altruísta, devemos antes de tudo considerar que o bem-estar dos outros é tão importante quanto o nosso; assim, pouco a pouco, o bem-estar dos outros torna-se mais importante do que o nosso. Por este motivo, podemos usar uma prática extremamente simples e efectiva, aliada ao ritmo de nossa respiração. Ao expirar, enviamos os todos os actos positivos e qualidades que adquirimos a todos os seres. Ao inspirar, pensamos que estamos assumindo todos os seus sofrimentos e suas causas.

É claro que não é uma questão de efectivamente sofrer no lugar dos outros. Porém, esta prática é essencial se quisermos nos abrir aos outros, porque ela nos dá grande coragem e força. Confrontados com uma situação difícil, doença, sofrimento físico ou mental, devemos expressar o desejo, "Devido às dificuldades pelas quais estou passando agora, possam todas aquelas dificuldades experienciadas pelos outros — talvez maiores que as minhas — ser exauridas. Possam as minhas dificuldades ser um resgate pelas dos outros." Graças a essa atitude de altruísmo, o sofrimento não tem mais o mesmo efeito sobre nós, tornando-se mais leve e mais fácil de se lidar, e sentimos uma grande coragem.

Por outro lado, se tudo está indo bem, se estamos com boa saúde e em paz, é importante não desfrutar desta situação de modo egoísta. Ofereça-a a todos os seres, desejando que todos desfrutem da mesma paz como nós. Então, este estado de paz assumirá uma dimensão muito mais vasta.

Este processo de troca não deve ser limitado aos aspectos manifestos da felicidade e do sofrimento; deve ser estendido às suas causas, às emoções perturbadoras, tais como o ódio, o desejo, a inveja, o orgulho e a falta de discernimento, ou ignorância. Então, quando quaisquer destas emoções nascer em nossa mente, devemos lembrar que é não apenas a causa de nosso próprio sofrimento, mas também do sofrimento de um grande número de seres. Pense o seguinte: "Possam todas as emoções similares, que preenchem a mente dos seres, ser exauridas graças à minha."

Treinando-nos deste modo, progressivamente adquirimos grande força mental, nos tornamos menos vulneráveis às emoções e nos livramos da ansiedade. Quaisquer sejam as circunstâncias externas ou emoções que surjam em nossa mente, estamos assim certos de sermos capazes de dissolvê-las. Mesmo se surgir um grande número delas, podemos ser como um bravo guerreiro, apropriando-se sem medo do campo de batalha.

Em resumo, o modo pelo qual as circunstâncias externas nos afectam não depende nem de sua natureza nem de sua intensidade; depende unicamente de nós mesmos. Circunstâncias idênticas afectam diferentes pessoas de diversos modos diferentes, dependendo de sua solidez ou vulnerabilidade.

Alguém que desenvolveu este tipo de coragem altruísta será muito pouco afectado pelas diferenças externas que perturbariam qualquer outra pessoa, destruindo completamente sua paz interior. Então, não é o mundo que devemos mudar, mas sim a nossa mente.

O que é verdade para o sofrimento também é para a felicidade. Não podemos esperar que a felicidade venha de factores externos, como bens materiais, glória, fama ou poder. Todos sabemos que as pessoas mais ricas e poderosas são muitas vezes as mais atormentadas. Então, não é cercando a si mesmo com condições externas aparentemente favoráveis que nós poderemos atingir a serenidade real. Essa paz e felicidade deve vir de dentro, e nós devemos construí-las e desenvolvê-las. Uma vez que tenhamos atingido este estado de paz, nada e ninguém poderão tirá-lo novamente de nós.

(Shechen Rabjan Rinpoche. Enlightened Mind.
In: Adarsha, nº 2. Lisboa: Ogyen Kunzang Chöling, 1996. Pág. 41-50.)

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